Acordo cedo. Sem aula na faculdade hoje... Aliás, tem uma prova, mas não vou fazê-la. Pego as chaves do carro, e saio por aí, dirigindo à toa, sem direção, procurando por uma vida, onde eu seja o protagonista, e não o coadjuvante.
Dirijo rápido, mas com cuidado, depois de tudo...
Absorto em pensamentos, escutando uma boa música, até chegar em Boa Viagem. Que ventos que me trazem pra cá?
Estaciono o carro, e saio andando pela praia. A onda me atinge, e sinto ela levar embora a areia embaixo dos pés. Uma onda, que vai e volta...
Sinto a brisa refrescante bater no meu rosto, e a água nos meus pés. Prazer. É o que sinto. Sento no banco, e observo o vai-e-vem das pessoas. Conta-se nos dedos as que passam sorrindo... “Que mundo triste”, é o que penso...
Volto então para casa, para o tedioso lar doce lar, onde eu sou obrigado a me lembrar dos problemas, onde nenhum vento é capaz de me refrescar, onde não encontro ninguém para cantar-me uma canção...
Mas depois de toda essa jornada, a minha vida ainda está por aí, e eu hei de encontrá-la... Um dia... No que, ao acordar, parecerá apenas mais um dia...
Eu queria poder Ir até a praia Num dia de sol Ou mesmo nublado Sentar numa pedra E esperar Somente esperar Deixar o tempo passar
Deixar o tempo passar Pra poder espiar Os pequenos detalhes Da vida futura Detalhes da minha vida Minha vida futura Só para fortalecer A certeza que já tenho De que estou fazendo o certo O certo para minha vida E da minha vida para os outros
Era uma vez, num lugar não muito distante, um garoto. Nascido em berço de ouro, sempre foi tratado pelos seus familiares como um príncipe, que cresceria para se transformar em um Rei. “Ah! Vai herdar o legado do pai!”, diziam. Mas a garoto, extrovertido e feliz na infância, foi ficando mais tímido, devido ao peso de “Herdeiro do Legado” nas costas... Com a timidez, ficou isolado, sem amigos, solitário...
Encostado num canto, com o rosto entre os joelhos, o menino chorava, esperando que alguém aparecesse, e lhe estendesse a mão. Mas ninguém apareceu, e a solidão tomou conta da sua vida. Inconscientemente, o garoto foi construindo um muro ao redor de si. Inicialmente, apenas uma parede, mas que com o tempo, foi ganhando altura, e espessura. Passou a ser apenas um muro, depois uma muralha, e enfim, uma Fortaleza Impenetrável.
Até que um dia, outro garoto apareceu, do lado de fora da Fortaleza. Curioso, bateu no portão de aço escuro e gritou:
- Posso entrar? - O construtor da muralha ficou confuso e sem saber o que fazer diante dessa pergunta.
- Ora, que criatura é essa que ousa me importunar nos meus domínios? - perguntou o garoto da Fortaleza.
- Me chamo Roberto Cipreste, e gostaria de entrar nessa Fortaleza. Tu és o dono dela? Como se chamas?
- Chamo-me Don Ricardo, e não sou apenas o dono, como também o construtor e único morador. A entrada de estranhos é terminantemente proibida.
- Único morador? Então deve ser extremamente solitário aí dentro, não? Deixe-me fazer companhia...
Mais confuso do que nunca, Don Ricardo, olhou por uma pequena abertura a fim de ver quem era esse ser tão curioso. Viu nada mais do que um garoto comum, mas de um carisma imenso. Gostou de imediato desse tal Roberto Cipreste, e perguntou:
- Se eu permitir sua entrada, o que ganho com isso?
- Ora, ganhas minha companhia, e isso não é pouca coisa diante dessa solidão que te dominas...
- Solidão? Quem disse que estou solitário?
- Você está sozinho, nessa imensa Fortaleza, como não poderias sentir-se solitário?
- Ok, você venceu. Estou solitário sim, mas isso não me incomoda. – Mentiu Don Ricardo.
- Duvido muito, pois ninguém agüenta passar muito tempo sozinho. Deixe-me entrar, e verás que estou certo.
- Refletirei sobre seu caso...
Com uma dúvida imensa no peito, Don Ricardo pensou silenciosamente. Já o outro garoto esperou pacientemente, mas não em silêncio. Contou detalhes da sua vida: sua família, seu passado, suas agonias, seus desejos, seus sonhos... E com isso, ia cada vez mais conquistando o coração amargo de Don Ricardo, conquistando sua admiração, e a vontade de estar junto desse carismático garoto...
Após um longo tempo, quando Roberto estava quase desistindo, um rangido alto fez-se ouvir, e os portões de aço começaram a se abrir, lentamente. O garoto então finalmente entrou na Fortaleza, e assim que os portões se fecharam atrás dele, uma grande rachadura apareceu, mas a Fortaleza Antes Inpenetrável ainda manteve-se de pé, e assim está até hoje...
Último minuto de jogo. Placar de 1x0 para os donos da casa. Os visitantes vão ao ataque. O atacante está cara a cara com o goleiro, pode de ser o gol do empate. Vai marcar... PEI! Ouve-se um disparo vindo da torcida local. O atacante é atingido na cabeça e cai morto no momento em que poderia empatar a partida.
Esta história é verídica e aconteu esta semana no Iraque. O jogador do time amador Buhairat foi morto por um tocedor do time adversário, o Sinjar.
Fiquei indignado com esta notícia, não só como ser humano, mas como um amante do futebol e frequentador assíduo dos estádios, que teme pelos absurdos que possam vir a ocorrer. O futebol, como qualquer esporte, envolve alegrias e tristezas, vitórias e derrotas. E isso deve ser encarado naturalmente.
O gol é o momento mais importante do futebol. É na hora do gol que as emoções vêm à tona. É na hora do gol que deixamos escorrer as nossas lágrimas, tanto de alegria pelo gol marcado, quanto de tristeza pelo gol sofrido. Mas desta vez o choro foi pela dor da perda, não pela perda do gol, mas pela perda de uma vida, pela perda do valor da vida, pela perda do brilho do esporte.
O tiro do torcedor iraquiano pode ter significado a vitória, sem nenhum brilho, do seu time. Mas significou, principalmente, a derrota do esporte, a derrota da paz. Aquele tiro dado no Iraque não atingiu apenas o jogador do Buhairat. Atingiu, também o coração dos verdadeiros amantes da beleza do esporte. Atingiu o coração de toda pessoa de bem, que viu uma vez mais, a vida ser tratada de uma forma tão banal. Será que uma vida pode valer menos que um gol?
O que nos resta agora é torcer para que episódios lamentáveis como este não se repitam. E que consigamos ter mais paz no esporte e, principalmente, na vida.
Olá, gostariamos de dar as boas-vindas a todos que se disponibilizaram a perder um pouco do seu tempo para nos apoiar. Em resumo: Sejam bem-vindos e obrigado!